“JÚLIA FETAL E O CRIME DA BALA DE OURO” RETOMA TRAGÉDIA DO SÉCULO XIX PARA REFLETIR SOBRE O FEMINICÍDIO

Uma história de amor, ciúme, violência e morte que atravessou quase dois séculos volta ao palco para provocar uma reflexão urgente sobre o feminicídio. O espetáculo “Júlia Fetal e o Crime da Bala de Ouro”, com texto e direção de Adson Brito do Velho, realiza nova apresentação no Teatro Xisto Bahia, no dia 15 de setembro (terça-feira), às 19h.

A montagem parte de um dos crimes mais emblemáticos da história criminal de Salvador. Em 20 de abril de 1847, Júlia Clara Fetal, então com 20 anos, foi assassinada a tiros pelo ex-noivo, o professor João Estanislau da Silva Lisboa, depois de decidir encerrar o relacionamento. A tragédia deu origem, ainda no século XIX, à história de que o assassino teria confeccionado uma bala de “ouro” utilizando as alianças do próprio noivado.

Mais do que uma reconstituição histórica, o espetáculo estabelece uma ponte entre o Brasil Imperial e o Brasil contemporâneo. Passados 179 anos, a história de Júlia permanece atual ao revelar mecanismos de posse, ciúme e violência contra a mulher que continuam presentes em relacionamentos abusivos e nos casos de feminicídio registrados diariamente no país.

Com 50 minutos de duração, a peça conduz o público pela atmosfera aristocrática da Salvador de 1847. A narrativa é apresentada por um mestre de cerimônias e um elenco que recria personagens envolvidos na tragédia, em uma encenação marcada pelo desenho de luz de Eduarda Pires, pela trilha sonora inspirada em grandes compositores do século XIX, como Franz Schubert, Johann Strauss e Frédéric Chopin, e pelos figurinos concebidos por Orlita Cruz.

A pesquisa e a construção dos figurinos dialogam com a experiência internacional de Orlita Cruz em Buenos Aires, onde passou por instituições ligadas às artes cênicas e à formação artística.

Uma terça-feira também pode ser dia de teatro

A nova apresentação também reforça uma proposta que vem surpreendendo a produção: levar o teatro para além dos tradicionais fins de semana. A sessão realizada em 1º de setembro, no Teatro Xisto Bahia, contrariou a ideia de que o público baiano não frequenta teatro às terças-feiras e registrou forte presença de espectadores.

A receptividade tem sido atribuída à combinação de uma história real pouco conhecida, uma dramaturgia envolvente e uma temática que permanece profundamente necessária: a violência contra a mulher.

A família de Júlia Fetal acompanha a montagem

Um dos momentos mais significativos da temporada aconteceu quando integrantes da família de Júlia Fetal entraram em contato com a produção e estiveram presentes em apresentações do espetáculo.

Segundo a equipe, familiares acompanharam a montagem e manifestaram aprovação à forma como a história foi levada ao palco, destacando a criatividade, a delicadeza e o respeito utilizados para abordar uma tragédia familiar ocorrida há quase dois séculos.

Uma história que ainda precisa ser contada

Na montagem, o público conhece também aspectos da trajetória de Júlia Clara Fetal. Nascida em 1827, ela era filha do comerciante português João Batista Fetal e da francesa Juliette Fetal. Criada dentro dos padrões da aristocracia europeia da época, dominava o francês, estudava inglês, tocava piano e tinha habilidades em desenho, bordado e pintura.

O professor João Estanislau da Silva Lisboa, por sua vez, nasceu na Índia, em 1819, e chegou ainda criança a Salvador. Formado em Letras, tornou-se professor de Geografia e Inglês no Liceu Provincial da Bahia e também ministrava aulas particulares para filhos de integrantes da elite baiana.

Os registros históricos apontam o ciúme e o comportamento descontrolado do professor como elementos relacionados à motivação do crime. João Estanislau alimentava a suspeita de que Júlia o estaria traindo com Luiz Antônio Pereira Franco, estudante de Direito que passava férias na Bahia.

A peça, entretanto, não busca justificar o crime. Ao contrário, utiliza a história para discutir os mecanismos de controle e violência presentes em relações marcadas pela posse e pelo ciúme.

Palavra aberta para falar sobre violência

A temática do feminicídio ultrapassa a representação teatral. Durante a apresentação, será aberto espaço para que pessoas da plateia que desejarem possam compartilhar depoimentos e reflexões sobre violência contra mulheres e relacionamentos tóxicos.

A proposta é transformar o espetáculo também em espaço de escuta e conscientização, aproximando a memória de Júlia Fetal das experiências e dos desafios enfrentados pelas mulheres nos dias atuais.

Direção

Professor, psicólogo e escritor, Adson Brito do Velho assina texto e direção da montagem. É autor dos livros Salvador tem Muitas MistóriasQuem tem Medo da Mulher de Roxo? e Os 171 Bairros de Salvador e as Origens dos seus Nomes.

Com trajetória dedicada ao teatro e à pesquisa sobre a história de Salvador, já dirigiu montagens de textos clássicos, entre elas “A Falecida”, de Nelson Rodrigues, apresentada na Escola de Teatro da UFBA. Seu trabalho mais recente foi “A História do Zoológico”, de Edward Albee.

Em “Júlia Fetal e o Crime da Bala de Ouro”, o diretor parte de uma história real da Salvador oitocentista para construir uma obra que ultrapassa o passado e lança luz sobre uma questão que permanece dolorosamente presente.

Elenco

Eobelle Rocha — Júlia Fetal
Alexandro Beltrão — Professor João Estanislau da Silva Lisboa
Orlita Cruz — Juliette Fetal, mãe de Júlia
Sofia Bonfim — Mucama Leonor
Adson Brito do Velho — Mestre de cerimônias

Imagens: Lízia Cardoso

SERVIÇO

Espetáculo: “Júlia Fetal e o Crime da Bala de Ouro”
Texto e direção: Adson Brito do Velho
Data: 15 de setembro (terça-feira)
Horário: 19h — sessão pontual
Duração: 50 minutos
Classificação: Livre
Local: Teatro Xisto Bahia — Rua General Labatut, 27, anexo da Biblioteca Pública do Estado, Barris, Salvador
Ingressos: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia)
Vendas: Bilheteria do local e Sympla – https://www.google.com/url?q=https://www.sympla.com.br/evento/julia-fetal-e-o-crime-da-bala-de-ouro/3569734&sa=U&sqi=2&ved=2ahUKEwjX9ZuEkd-WAxWcrJUCHWVYIxgQFnoECB4QAQ&usg=AOvVaw29uZkPvC8UEnKzmcdjftb7

Contato: (71) 98631-3242

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