Agosto costuma ser um mês dedicado às homenagens aos pais fazendo com que as vitrines das lojas se encham de presentes, vemos campanhas publicitárias celebrando memórias afetivas e as redes sociais são tomadas por fotografias e declarações. Mas o que acontece quando essa lembrança é marcada pela ausência? É justamente sobre essa pergunta que a escritora baiana Analu Leite constrói “A Inventariante”, romance que transforma a burocracia de um inventário em uma investigação íntima sobre memória, pertencimento e herança emocional.
Na narrativa, Marcela é convocada a assumir o inventário de Álvaro, um pai carismático, contraditório e emocionalmente ausente. Enquanto organiza documentos, propriedades e dívidas, ela percebe que o verdadeiro patrimônio deixado por ele não cabe em cartórios. É preciso reorganizar lembranças, confrontar ressentimentos e entender como a presença daquele homem continua moldando sua vida, mesmo depois da morte. Segundo Analu Leite, o romance nasceu justamente do interesse por essa dimensão invisível das relações familiares. “Percebi que investigar o outro será sempre, em última instância, investigar a si”, afirma a autora. Para ela, toda tentativa de compreender quem foram nossos pais inevitavelmente nos obriga a olhar para quem nos tornamos.
Em um período do ano que costuma idealizar a figura paterna, “A Inventariante” propõe um outro olhar. Marcela não reage à morte do pai como a sociedade espera, pois a sua experiência é feita de ambivalência, culpa, raiva e afeto interrompido, sentimentos que desafiam a ideia de que toda perda produz o mesmo tipo de sofrimento. Analu questiona sobre o sofrimento da morte de um pai ausente. Segundo ela, ”se ele não foi o pai que se esperava, a filha estaria igualmente liberada de seu papel de filha?”, questiona Analu Leite. Ao colocar essas dúvidas no centro da narrativa, o livro amplia o debate sobre a parentalidade para além da idealização e reconhece a complexidade das relações familiares.
Embora o romance tenha como ponto de partida um processo de inventário, seu interesse está menos na divisão dos bens do que naquilo que nenhuma escritura consegue registrar. Ao longo da história, Marcela percebe que herdamos gestos, medos, formas de amar, silêncios, talentos e até comportamentos que juramos nunca repetir. “Vejo-me repetindo meus pais até mesmo em atitudes que não gostaria de reproduzir”, afirma Analu Leite, ao comentar uma das reflexões que o livro suscita. “O que herdamos de nossos pais ou daqueles que nos antecedem é um tema que me fascina”, completa.
Uma Salvador contemporânea como cenário
Ambientado em Salvador, o romance também incorpora a cidade como parte fundamental da construção narrativa. Ruas, bairros e paisagens dialogam com os personagens e ajudam a compor a atmosfera emocional da história. Ao situar o enredo na capital baiana, a autora também propõe um retrato urbano de uma Salvador contemporânea. “A trama foi deliberadamente inspirada em uma história que se passou em Salvador e no sobe e desce desta cidade feita de lindas paisagens e de inegáveis desigualdades sociais”, explica. “Arrisco dizer que, para este romance, Salvador é território possível para uma história tão nossa acontecer.”
Sobre a autora
Analu Leite é formada em Direito, na Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc), mestre em Processo Constitucional pela Universidad Nacional Lomas de Zamora (Argentina) e servidora pública do Tribunal de Justiça da Bahia. É autora dos romances “Com amor, mamãe” (Ed. Mente Aberta) e “Verdades de papel” (Ed. Urutau). Em 2025, lançou seu primeiro infantil, a “Menina e o sabiá”, pelo selo Tádesol Tádelua (Ed. Urutau).
FICHA TÉCNICA:
“A Inventariante” | Autora: Analu leite
Editora: Urutau
Ano: 2026
Páginas: 188
Preço: R$ 65,00
Vendas: Site da Editora Urutau
